Analfabetismo Visual no Brasil e Um Ideal de Postura Conscientizadora

16/12/2011, por Fernando Busch

Em outubro deste ano tive a oportunidade de apresentar no V SulDesign, Encontro Sul-americano de Design, um estudo sobre sintomas de uma situação preocupante em nosso país, o analfabetismo visual. As reflexões decorrentes deste estudo são compartilhadas abaixo.

As Roupas Novas do Imperador 

Existe um conto que ajuda a ilustrar e a compreender melhor as noções que cercam o alfabetismo visual e qual sua relevância para o mercado. O conto se chama “As Novas Roupas do Imperador”. Vou contá-lo resumidamente.

As Roupas Novas do Imperador

Fotografia: SILK, Chris. Bored kids? Broadway Palm brings “The Emperor’s New Clothes” to town.

Era uma vez um imperador super narcisista, que só se importava com sua aparência, seus trajes, seus acessórios e badulaques e não dava muita importância para as atribuições de sua função e para seu império. Todas as atividades rotineiras do local eram vistas por ele principalmente como uma oportunidade para mostrar-se para multidões, cada vez com uma roupa diferente. Uma mais cara, luxuosa e extravagante que a outra.

Certa vez, dois malandros apareceram em seu castelo afirmando possuírem um produto incrível e que seria de extremo interesse de vossa majestade, o imperador. O produto era um tecido caríssimo feito de uma seda muito fina que possuía uma propriedade única: ela só era visível por pessoas inteligentes e que eram dedicadas em seus trabalhos. Pessoas ignorantes e desleixadas eram incapazes de ver o tecido e as belas roupas costuradas com ele, que foram oferecidas pelos malandros ao imperador.

Aí vem a surpresa, o imperador não conseguia ver o produto que estava sendo oferecido a ele. Mas isso era inadmissível! O imperador disse a sí mesmo que ninguém poderia jamais saber que ele era ignorante e desleixado. Sendo assim, fingiu grande fascínio pelo tecido e sem demora, concedeu aos dois malandros todos os recursos necessários para que estes pudessem costurar roupas novas para ele usar em um desfile.

Enquanto os malandros trabalhavam com fervor, costurando roupas invisíveis com tecidos invisíveis, o imperador enviava subordinados seus ao encontro deles, para verificarem o andamento do trabalho. Desta forma o imperador pensou que poderia saber quais dos seus subordinados eram ignorantes e desleixados (como ele). Mas ninguém poderia saber.

Resumindo, o conto termina com o imperador desfilando nú para todos em seu império e recebendo muitos aplausos de pessoas fascinadas com a elegância de suas roupas.

Alfabetismo Visual

Este conto, tratando de forma bem humorada com estereótipos e situações irreais, traz à tona uma reflexão pertinente à questão do alfabetismo visual.

(…) o alfabetismo visual impede que se instaure a síndrome das “roupas do imperador”, e eleva nossa capacidade de avaliar acima da aceitação (ou recusa) meramente intuitiva de uma manifestação visual qualquer. Alfabetismo visual significa inteligência visual. (DONDIS, 1997, p.231)

O alfabetismo visual não deve ser uma preocupação prática só de educadores, mas de todos os profissionais da área da comunicação visual. Toda e qualquer discussão e mobilização, por parte de profissionais do desenho, no sentido de alfabetizar visualmente o mercado (clientes e colegas da área) pode trazer uma contribuição no sentido da melhoria da situação da inteligência visual no país. Fato que favoreceria a propagação e valorização do design gráfico (entre outras profissões que lidam com o visual) como gerador de resultados através de mensagens visuais. Coletei e compartilho aqui posicionamentos de alguns autores.

Alfabetismo significa participação, e transforma todos que o alcançaram em observadores menos passivos. (DONDIS, 1997, p.231)

Isso fica claro ao pensarmos no alfabetismo visual relacionando-o com o alfabetismo “verbal”. Um mundo de possibilidades de abre para aqueles que aprendem a ler e a interagir com o mundo através das palavras. Outro se abriria para aqueles que se tornassem capazes de compreender sentidos e intenções provenientes de manifestações visuais e de compor as suas próprias mensagens com esta linguagem.

Na psicologia da forma, a imagem se constitui na percepção, (…). Essa abordagem entende a percepção como uma elaboração ativa, uma complexa experiência que transforma a informação recebida. (SARDELICH, 2006, p.205)

“Percepção como elaboração ativa” reafirma a relação de alfabetizar para integrar e promover a participação. Em um mercado repleto de poluição visual e de mensagens visuais concebidas sem o menor planejamento, e que acabam prejudicando imagens de empresas, paira a ideia de que ser conhecedor dos recursos visuais é impossível para uma pessoa sem uma pré-disposição “natural” ou mesmo de que, por outro lado, todas as pessoas já dominam essa linguagem “instintivamente”.

(…) o modo visual é visto ou como inteiramente fora do alcance e controle das pessoas sem talento, ou, pelo contrário, como imediatamente acessível. (…) ambos os pressupostos são falsos e provavelmente responsáveis pela baixa qualidade do produto visual em tantos meios de expressão visual. (DONDIS, 1997, p.229)

Certa vez participei de um curso com os professores PhD Luiz Vidal Negreiros Gomes, D.Sc. Ligia Medeiros e D.Sc. Marcos Brod Junior, intitulado 9 Princípios Beatles: Curso de Potenciamento à Criatividade de Profissionais Designers. Nele, Gomes compartilhou com a turma uma fórmula baseada em uma pesquisa de Bronowski (1965) referente à relação entre emoção, inteligência e desenho.

BD = e x i
Beleza em Desenho é igual a emoção multiplicada pela inteligência.

Tal fórmula quando colocada lado a lado com diversos sintomas do analfabetismo visual em nosso país nos faz verificar algo que talvez já fosse evidente para muitos. O problema está no i.

Outro fator relevante e, levantado por alguns autores como sendo um dos principais, é o tecnológico. Supõe-se que o avanço tecnológico e dos conhecimentos técnicos tenha “atropelado” o avanço do pensamento e dos conhecimentos conceituais em nosso país na área da comunicação visual.

(…) a interferência dos recursos tecnológicos, (…) faz emergir uma legião de pessoas não gabaritadas, que, por conseguinte, mudam a percepção que os clientes têm de nossos serviços (designers). (SANTANA, 2010)

 

Responsabilidade

Diante de tudo isso fica a preocupação com o futuro e o nível da cultura visual brasileira. E perante esta preocupação surgem algumas reflexões sobre quais seriam as ações adequadas para mudar a situação e qual seria o ideal de postura a ser assumido pelos profissionais designers.

Fato é que carecemos de uma propagação adequada de o que é o design.

(…) o design hoje é compreendido e conceituado, (…), como: a concepção e planejamento de todos os produtos feitos pelo homem. (FIELL, 2000 apud GOMES FILHO, 2006, p.13)

E diante dessa necessidade de propagação não podemos ficar passivos, como se o mercado inteiro onde atuamos soubesse o que estamos vendendo e o que estamos solucionando todos os dias.

(…) não vendemos ideias ou projetos. O que temos a oferecer são soluções para as necessidades de vida das pessoas. (STRUNCK, 2004, p.18)

Muita gente em nosso país não é alfabetizado visualmente para compreender um projeto visual. Mas não é preciso ser alfabetizado visualmente para perceber qualidade e ser influenciado por ela a agir de tal modo ou, por exemplo, a comprar determinado produto que faça uso proveitoso do design para atribuir valor a sí mesmo e sua marca.

É com base na percepção e em seu poder de influência que precisamos, como designers e profissionais de comunicação visual assumir uma postura conscientizadora não só para o bem da profissão e fomento do mercado em todos os níveis, mas para elevar o nível da cultura visual em nosso país e impedir que empresas com potencial de crescimento invistam em algo que supostamente seja de grande qualidade mas que, na verdade, ninguém está vendo.

Fernando Busch
Diretor e designer gráfico do Multiverso

Referências

DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1997.
GOMES FILHO, João. Design do objeto: bases conceituais. São Paulo, SP: Escrituras Editora, 2006.
GOMES, Luiz Vidal Negreiros. 9 Princípios Beatles: Curso de Potenciamento à Criatividade de Profissionais Designers: arquitetos, desenhadores, engenheiros. Porto Alegre, RS: sCHDs Editora, 2010.
SANTANA, Leonardo Nunes. O designer gráfico e o mercado de trabalho: oportunidades e ameaças. Disponível em: <http://www.webartigos.com/articles/43749/1/O-Designer-Grafico-e-o-Mercado-de-Trabalho-Oportunidades-e-Ameacas/pagina1.html>. 1 de setembro de 2011.
SARDELICH, Maria Emilia. Leitura de imagens e cultura visual: desenredando conceitos para a prática educativa. Educar, Curitiba, PR, n. 27, p. 203 – 219, 2006. Editora UFPR.
STRUNCK, Gilberto. Viver de design. Rio de Janeiro, RJ: 2AB, 2004.

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